A arte e o truque

Pessoas que não sabem ouvir, em regra, não gostam de arte.
Ilustração: Carolina Vigna-Marú
01/01/2011

Uma grande questão que paira hoje sobre nossas cabeças, homens deste início de século 21, que permeia nossos pensamentos e ações, que está enraizada em nosso cotidiano e que define nossa visão de mundo é: existe mágica?

Cada época se depara com suas próprias questões, em regra superadas de alguma maneira pela geração seguinte, que, mesmo sem o saber, foi moldada por estas interrogações. Físicas, como as que enfrentaram os homens do século 15, antes das descobertas marítimas que derrubaram paradigmas estabelecidos, e até metafísicas, que nos acompanham desde que começamos a nos pensar. São ligados, físico e metafísico, um ao outro, têm mesmo uma relação umbilical de causa e efeito. Camus, em seu O mito de Sísifo, de cara, diz que a grande questão filosófica era o suicídio. As gerações que se seguiram inventaram um caminhão de antidepressivos e remédios, e tornaram-na uma questão médica. E qual o sentido da vida? Não, não vou cair nessa.

O homem de hoje tem a seu alcance informações como nunca se viu antes na história. O enigmático e inacessível Tibete?, basta clicar e vemos vídeos, lemos relatos, conhecemos sua história. O coração da selva amazônica?, tem programas de computador que mostram as fotos de satélite. As cidades todas, ano a ano, vão se parecendo cada vez mais. Os mesmos produtos que se encontram num mercadinho em Trancoso, se encontram no mercadinho em Paris ou em Mumbai. A mesma marca, o mesmo rótulo para línguas diferentes. Mesmo a pobreza e a riqueza, antes tão diferentes, vão ficando parecidas, nas diferentes culturas e países, e têm inglês como idioma. Na marca dos helicópteros, nas camisetas puídas com dizeres que quem usa não entende. Uma das conseqüências da tal da globalização. Dia a dia, fato a fato, vão caindo por terra todo e qualquer mistério. Para tudo, a explicação sensata, que somos capazes de entender. Mágicas desmascaradas. E a religião, como fica nesta história? Dediquei um ensaio a este tema, não entro nele agora porque vim aqui falar sobre arte.

Arte é uma palavra de definição escorregadia, no entanto, ela é a expressão exterior do mundo interior de um sujeito. A materialização desse mundo, e a relação sensorial que se estabelece com o material, é que define a qualidade da arte e do espectador. A da arte vai depender de três aspectos principais. As características do mundo interior do sujeito, a técnica de como esse mundo interior se materializa, e também seu ineditismo. O ineditismo, quer na forma quer no fundo, é o passo a frente, a antena que capta primeiro uma dada realidade em transformação. A qualidade do espectador vai depender de sua educação, da cultura em que está inserido, de seu repertório, e de quanto ele gosta de dialogar. Porque é uma conversa, entre mundos interiores, ouvir uma música, ler um livro, olhar um quadro ou um objeto, assistir a uma peça de teatro, uma performance, um filme, uma dança. Pessoas que não sabem ouvir, em regra, não gostam de arte. E aqueles eruditos que se arvoram em cima da arte estabelecida usam-na apenas como uma medalha, como status adquirido, que impressiona certo tipo de público com pouca formação. Como ter um carrão importado na garagem que foi comprado pelo alto preço, não pelos eventuais atributos que um carrão importado deve ter, se é que tem. Uma menção aos historiadores e professores, que têm a importante tarefa de passar para as gerações futuras a arte passada. E eles nos alimentam, o sabor vai da sensibilidade da nossa língua.

Movimento interior
O truque é um recurso usado para impressionar o espectador, para provocar reações premeditadas, e essa é sua única finalidade. O espectador é a razão de ser do truque. O truque visa a comunicação. O ego. O mercado. A arte é um movimento interior, que pode nascer da raiva, do ressentimento, do amor, da tristeza, e de tantos outros sentimentos e sensações que formaram o artista. O impulso da arte é a verdade. A verdade é sua principal matéria-prima, a verdade particular de cada um. A técnica dá vida à arte, a técnica, também, de certa maneira, confere-lhe valor. O espectador é desimportante para a produção de arte. Ele é mera conseqüência, e conseqüência tardia, já que arte demora para ser digerida. Em Cartas a um jovem poeta, Rilke aconselha o poeta Franz Xaver Kappus a buscar a arte nele mesmo. A arte é a uma expressão individual. Aí o mercado se apropria dela, e truques e mais truques apareceram, uns de muito boa qualidade, é bom dizer. O próprio conjunto de cartas reunidos por Kappus é exemplo disso. Quantos indefectíveis Cartas a um jovem não-se-o-quê não vieram depois disso?

Às vezes é apenas essa verdade que determina o que é truque e o que é arte, para uma mesma obra, ainda que mentiras tornem-se verdade todos os dias — como um Guilherme que usa dos mais variados e inconfessáveis artifícios para seduzir uma Dora e acaba se apaixonando por ela. Faz algum anos, li nos jornais sobre um trabalho de uma artista brasileira — e foi ao ver a reportagem que tive vontade de escrever este texto que agora sai — que compôs pênis usando terços. Houve muita polêmica. Se a religião, e o erotismo, tão reprimido em décadas passadas, estiveram presentes na formação da artista e foram para ela, para o bem e para o mal, motivo de construção de seu mundo interior, é arte. Se foi uma sacada promocional, apenas para ganhar os jornais, é truque — mas isso não é um critério subjetivo? Sim, mais um. Em regra, truques têm vida curta, garantem holofotes, mas são logo esquecidos pela indústria do truque, sempre a procura de fatos novos. E o fato não precisa ter verdade, basta ser fato. Sei que a obra causa uma reação em quem a vive, seja truque ou arte. Mas o truque é um jab, e a arte um direto no queixo. Em regra, truques não são inéditos, são cópias, muitas vezes cópias melhoradas de uma arte original, e em regra seu impacto não é perene. O nome da artista que mencionei é Márcia X (1959-2005), e o da obra é Desenhando com terços.

Em tempo, por vezes existe verdade em obras que procuram converter, catequizar. Não são arte. São um truque de outra natureza, mais vil até, ainda que o produtor da obra acredite que esteja fazendo o bem. Não é objetivo da arte convencer ninguém de coisa alguma. A arte apenas ilumina nossas sombras, ainda que por um instante, e pode ser até aquele em que caminhamos na rua e ouvimos uma música de um rapaz com expressão dramática no rosto movimentando os dedos no seu trompete. Aí uma moeda e os olhos no relógio, que o tempo é sempre curto e a vida, cara.

Relativismo
Agora, ainda existe mágica, ou tudo não passa de truque? Será que alguém que estala os dedos e produz uma faísca genuína é melhor que um ilusionista que nos ludibria com a imagem de um prédio em chamas? E não será mágica, uma ilusão espetacular? A técnica, felizmente, está chegando ao alcance de todos. As pessoas estão escrevendo melhor, pintando melhor, e o computador é uma alavanca formidável. Antes toscos, os truques hoje são sofisticados. Agora, isso os torna arte? Vivemos na ditadura do relativismo, em que tudo é válido. Mas, se tudo for arte, arte existe?

Nesse início de século, em que o stablishment representado pela indústria — com seus prêmios e listas — e pela academia se apropriou da arte, em que os mistérios todos foram ou estão sendo desmascarados. Nesse over-realismo em que vivemos, em que os heróis não fazem mais sentido. Nessa era em que a comunicação determina o valor de uma obra, não suas características intrínsecas. O ovo da galinha já não importa, apenas o seu cacarejar — não é a toa que as gerações mais novas confundem comunicadores com artistas. Repito a pergunta, existe mágica ou tudo não passa de truques aprendidos, como num bom curso de roteiro em que o professor determina qual deve ser a estrutura de um filme para que ele funcione? Porque tem de funcionar. Tudo tem de funcionar. Um livro hoje tem de funcionar, nas gôndolas das livrarias, na leitura dos produtores que depois o contratarão para virar filme. Artista virou profissão. Mas a arte, a mágica, são funcionais? Fernando Pessoa, Drummond, o já citado Rilke, o trabalho deles é funcional? Sim, é — ainda que a motivação para sua produção não tenha sido. Nos deixa em silêncio, expande nossos horizontes internos, nos torna pessoas melhores. Para isso serve a arte, joga uma água no fogo que se agita em nosso ser. E esse estado de graça ao estarmos diante de uma obra de arte talvez não seja mais que vapor — será que somos mesmo mais que vapor?

Sim. Apesar de todas as colocações expostas, a resposta à questão do começo do texto é categórica e afirmativa. Sim. E não pode ser dada de outra maneira. Sim. Não pode haver dúvida. Negar a existência dessa mágica seria negar o impulso criativo e a verdade de milhões de pessoas, ainda que apenas alguns poucos cheguem ao tal ineditismo e a uma excelência que atravessa gerações. Por mais que a indústria e a academia garantam empregos e egos. Por mais que dissequem o cérebro e descubram todos os seus impulsos neurológicos e químicos. Por mais que se conheçam os processos todos. Por mais que os deuses sumam de nossas vidas tão preenchidas pelo nosso trabalho e pela ciência. Sim, Por cima de paus e pedras. Nuvens e tempestades. Cobras e lagartos. Negar a existência de mágica seria negar a arte, seria achar que tudo não passa mesmo de farsa. Que por trás de todo livro, todo quadro, toda música, existam apenas truques, cifrões e vaidade. Que o impulso é unicamente exterior e utilitário. E o amor não está no mesmo barco? Se não há mágica, há amor? Se não há amor, todas as relações afetivas são mentirosas?

Ou não. Talvez seja mesmo apenas uma questão de crença boba. Talvez um formidável ilusionista seja mesmo melhor que um mágico de segunda, como um sedutor de primeira é de fato muito melhor que um apaixonado de segunda. Talvez não exista nem mágica nem arte, e tudo não passe de ilusão, entretenimento para preencher nossos vazios. Nem amor, que pode ser explicado pelos psicanalistas, biólogos, antropólogos, essa gente estudiosa. E talvez nem exista a verdade absoluta, nem mesmo a verdade de cada um. Ou talvez, finalmente tenha desembarcado em nossa cidade um desses moços de fora, desses despachados, que entendem de tudo, tão temido pelo narrador de A máquina extraviada, uma obra-prima de José J. Veiga. E esteja neste momento apertando os parafusos e pondo cada parte da Máquina para funcionar. E, aos poucos, vai se perdendo o encanto, e não haverá mais Máquinas. Apenas engenheiros.

Carlos Eduardo de Magalhaes

Nasceu em São Paulo (SP), em 1967. É autor de nove livros, dentre os quais Mera fotografia (1998), Os jacarés (2001), O primeiro inimigo (2005), Dora (2005) e Trova (2013). É editor da Grua Livros.

Rascunho